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sexta-feira, 2 de julho de 2010


Seus dedos na minha pele são arrepios. Todos os pelos, curiosos, levantam-se para ouvir o suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras, acompanham os seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Seus dedos que, de tão leves, escorregam sobre minha pele, cortando-me em quatro pedaços.


Rita Apoena

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Mundo Grande


Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.

[...]
Sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
Num só peito de homem... Sem que ele estale.

[...]
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
Como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
Desaprendi a linguagem
Com que homens se comunicam).


[...]
Outrora viajei
Países imaginários, fáceis de habitar,
Ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao suicídio.

Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
[...]



Poema:Carlos Drummond de Andrade
Foto: Kakau

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Conversa emprestada...

Tudo é passado e amanhã não tem mais nada. Daqui mais um tempo, miragens. Porra, sabe? Tem coisa que pesa. Pesa ainda mais em mim, uma viciada nessa coisa de eternidade. Quanta dificuldade, quanta.



*



... tenho me sentido longe de todo mundo. Ninguém me traduz. Virei deserto e nada mata minha sede. Gente demais me dá um silêncio, cara. Pra agora, eu só queria quê. Conversas baixinhas, brincadeiras com minhas mãos, uma sacudida com qualquer filosofia fodida, dilacerada, porque a poesia já acabou faz tempo.



*



Ontem arranquei coisas pra caramba aqui de dentro. Com minhas unhas, mesmo.



*



É como quando você me deu aquele último abraço e eu me descobri cheia de corações.Seria impossível tanto rebuliço por conta de um único pulsar.



Foto: Kakau

Frases: Jaya



Jaya,
Me desculpe pela apropriação destas frases.
É que me descrevem tão bem neste momento que não resisti.
O texto todo é lindo, para variar né?
Beijos.

domingo, 3 de janeiro de 2010

HEXAGRAMA 65





Nenhuma dor pelo dano.
Todo dano é bendito.
Do ano mais maligno,
nasce o dia mais bonito.


1 dia,
1 mês, 1
ano.




Poema: Leminski
Foto: Google

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Cartão de Natal




Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:
que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

Poema: João Cabral de Melo Neto
Foto: manucardoso

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

enchantagem

enchantagem


de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

Paulo Leminski

sábado, 3 de outubro de 2009

Serenata




Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Poema: Cecília Meireles
Foto by Google

domingo, 20 de setembro de 2009

Aceitação


É mais fácil pousar o ouvido nas nuvens
e sentir passar as estrelas
do que prendê-lo à terra e alcançar o rumor dos teus passos.

É mais fácil, também, debruçar os olhos nos oceanos
e assistir, lá no fundo, ao nascimento mundo das formas,
que desejar que apareças, criando com teu simples gesto
o sinal de uma eterna esperança

Não me interessam mais nem as estrelas, nem as formas do mar,
nem tu.

Desenrolei de dentro do tempo a minha canção:
não tenho inveja às cigarras: também vou morrer de cantar.


Poema de Cecília Meireles
Foto by Google

domingo, 26 de julho de 2009

Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.


Poema: Drummond
Foto: Kakau

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Páginas...

Páginas viram
no branco da memória
cheia de histórias pra contar

Páginas soltas
ao vento das incontáveis horas
que esquecia de olhar

Em um acordo com o tempo
que bem despercebido ia para lá...

A páginas viram o que era
e só agoras vejo e viro

Novas páginas verão
este verão chegar


Poema: Dyane Silva
Foto: Stock.XCHNG

domingo, 7 de junho de 2009

Vazio...





"vazio agudo
ando meio
cheio de tudo."



Poema: Paulo Leminski
Vídeo: Cristiane Fariah e Leonardo Arantes

terça-feira, 17 de março de 2009

Inestimável Valia


Se tudo na vida tem seu preço
Quanto vale matar uma grande saudade
Sem prazo de validade...
Sem meio, fim, nem começo?

Poema: Bruno Bezerra
Foto: Google

quinta-feira, 12 de março de 2009

Identificação


Usando as mesmas palavras
Precisas e limitadas,
Os homens raro se entendem.

As almas se identificam
Nas graves coisas profundas,
Inonimadas.


Poema: Helena Kolody
Foto: Google




Ps.: Ando meio sem tempo.
Estudando e trabalhando.
Desculpem a ausência nos blogs :}

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Tenho tanto sentimento,,,


Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.


Poema: Fernando Pessoa
Foto: by Google

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Voz da Noite



O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.

A voz da noite
diz, baixinho:
esquece... esquece...



Poema: Helena Kolody

Foto: Hugo Pimenta

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Distância



Minúscula estrela,

pirilampo azul na fímbria do horizonte,
a palpitar muito além do mais longe...



Poema: Helena Kolody
Foto: Google



domingo, 9 de novembro de 2008

Tempo...





O tempo não para!
Só a saudade é que faz
as coisas pararem no tempo.



Poema de Mário Quintana
Foto de Pedro Moreira

domingo, 2 de novembro de 2008

Eu escrevi um poema triste


Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza...
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel...
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves...
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!

Poema de Mario Quintana
Foto de Raul Nunes

domingo, 5 de outubro de 2008

a dor do não vivido


Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advêm das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos,
por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados pela eternidade.

Sofremos não porque
nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
mas por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo,
para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe
é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu,
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos,
mas porque o futuro está sendo confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e
nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o
desperdício da vida
está no amor que não damos,
nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e de que, esquivando-se do sofrimento,
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.


Texto de Carlos Drummond de Andrade
Foto de Armando F. Sousa





***



Quero aproveitar para agradecer o presentinho que ganhei do Átila.

Fiquei muito feliz com o Selo e adorei o poema.
Obrigada por lembrar desse blog que tem sido feito com muito carinho.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Lápis de Cor

Sempre gostei de lápis de cor. Gosto de desanhar apesar de não possuir nenhum talento, mas o que realmente gosto é pintar.

Passeando por blogs encontrei esse vídeo que achei lindo e me lembrou do poema que coloquei abaixo, apesar de não ter muito a ver com o vídeo. Mas gosto dos dois, me lembram do quanto é gostoso desenha e pintar e me dão vontade de pegar meu estojo de lápis e sair desenhando e pintando como fazia quando criança.

Aliás porque não faço mais isso se gosto tanto? Só porque cresci? Que besteira, não?
Acho que vou voltar a desenhar e pintar, é tão gostoso, relaxante...







Sobre Lápis de Cor

Espalho meus lápis de cor pelo chão.

Há tanto tempo
entendo que precisas de espaço...

Mas eu queria
te desenhar um desenho bem bonito

em que eu mesma me fizesse
céu, sol, passarinho, vento, moinho

(ou algo qualquer que te mostrasse
como seria leve minha vida em teu caminho).

Para que tudo fique perfeito,
não me importa usar toda minha caixa,

minhas folhas e borrachas,
porque (além de ti) não desejo nada.

A única coisa que me faz hesitar
é esse medo de o tempo

apagar meu desenho
antes que o queiras olhar
.


Vídeo de Carlos Lascano
Poema de Filipe C.